domingo, 13 de novembro de 2011

Agiotagem

Os princípios basilares de qualquer país atravessam, transversalmente, os mais elementares preceitos e normas de vida em sociedade e da preservação dos direitos humanos. 

Qualquer cartilha constitucional, de qualquer país, segue, na essência, as mesmas doutrinas filosóficas e sociais.

Nunca se viu uma ditadura que, na boca dos seus dirigentes, não seja a mais pura das democracias. 

Passando do plano teórico e retórico ao prático e real, vemos que as noções básicas e nobres, que sempre caracterizaram os portugueses e outros povos, tais como a simplicidade, honradez e dignidade, a par do humanismo, bom senso e lucidez, estão a ser trocadas, menosprezadas e até achincalhadas.

Os dirigentes e candidatos a qualquer coisa, aceitam, com aparente plena tranquilidade de consciência, que o futuro do filho do operário será diferente do do filho do quadro superior, ou do endinheirado.

A diferenciação dos cuidados médicos, educação, enquadramento social, preparação académica e profissional, com curso superior garantido, mesmo que seja pelo dinheiro da família, são pouco mais que adornos constitucionais.

Mantêm-se, em Portugal, quase quarenta anos após a criação das grandes esperanças, a inércia e o poder; na essência, o “status quo”, que garanta a estabilidade social.

A agiotagem prolifera numa sociedade cada vez mais fechada.

Os negócios escuros, ou não completamente claros, movimentam um submundo, desprezível do ponto de vista ideológico mas, economicamente, condicionador de grande fatia da economia global.

A tradicional “cunha” está aí, para lavar e durar.

A enorme mole de funcionários públicos já não tem caracterização condigna, está a ser implacavelmente substituída por quadros técnicos, e deixados os resistentes entregues a si próprios, em muitos casos, de esquema em esquema, de avaliação em avaliação, até que surja um ponto de arrumação.

Os pilares básicos da ordem social, nomeadamente a família, são ignorados, ou atacados.

As acções de educação e alfabetização de adultos e apoio a reformados e inválidos, são atropeladas por apoio a tóxico-dependentes, criminosos e marginais e pelo controlo de grupos com capacidade de intervenção política e peso eleitoral.

Surgem então os eternos candidatos a qualquer coisa, sob a forma de subsídio, emprego – não confundir com trabalho –, cargo político, administrativo, governamental.

Depois vêm os que detendo qualquer influência – ou tal fazendo crer –, estão sempre dispostos a ajudar quem precisa, a conseguir isto ou aquilo, a furar os esquemas da burocracia…A troco de… 

A agiotagem chegou aos sindicatos, talvez melhor dizendo aos sindicalistas, que vão ao despudor de cobrar, aos trabalhadores, altas percentagens das indemnizações, por extinção de postos de trabalho, em empresas extintas.


Perfumes

Ainda que custe a crer, o homem utiliza perfumes desde a Idade da Pedra. Mas daí a uma das indústrias mais rentáveis no mundo, vai toda uma actividade industrial e comercial que movimenta somas incalculáveis e emprega milhões de pessoas.

A origem da palavra perfume pode atribuir-se aos primórdios da vida na terra, quando os homens queimavam madeiras aromáticas para apaziguar e satisfazer os deuses, com fumo (per fumum).

Porém, a fabricação de perfumes para uso humano começou com os Egípcios, cujos perfumistas artesanais, conseguiram extrair aromas naturais dos mais variados tipos.

No túmulo do faraó Tutankamon, foram encontrados mais de 3000 pequenos potes que ainda conservam as fragrâncias, apesar de enterrados há mais de trinta séculos.

A perfumaria sofreu muitas transformações ao longo dos tempos.

O descobrimento do álcool, pelos Árabes, no séc.VIII, permitiu a diluição de óleos e resinas olorosas que acabaram por revelar toda a plenitude das suas qualidades aromáticas.

Daí se desenvolveram perfumes muito mais finos, até se chegar à lista com os dez perfumes mais vendidos no mundo.

Os fabricantes, perfumistas e empresas internacionais de estudos de mercado, elegeram essa lista, cujo primeiro é o Chanel nº5. Seguem-se, pela ordem de volume de vendas: Coco Mademoiselle (Chanel), J’adore (Dior), Light blue (Dolce & Gabana), Angel (Thierry Mugler), Pleasure (Estée Lauder), Chance (Chanel), Trésor (Lancôme), Allure (Chanel) e Eternity (Calvin Klein). 

O primeiro perfume famoso, fabricado com álcool, foi a Água da rainha da Hungria que assim se chamou por ser o predilecto da princesa Isabel, no início do séc.XIII. 

Os gregos, que consideravam o perfume corniso um dom de Vénus, usavam aromas diferentes para cada parte do corpo: menta nos braços, tomilho nos joelhos, óleo de orégão nas pernas e nos pés, manjerona nos cabelos, óleo de palma no peito.

A mais antiga das fragrâncias actuais é a “Água de Colónia 4711”, criada em 1796 e considerado o primeiro perfume unissexo do mundo.

Foi usado por Napoleão e a sua amada Josefina de Beauharnais, entre muitas outras personagens famosas.

Saber perfumar-se é toda uma arte.

Recomendam os “expertos” que se devem perfumar as zonas onde as pulsações são mais intensas: pulsos, tornozelos, seios, lóbulos das orelhas e busto, já que o calor do corpo activa as fragrâncias e torna-as mais duradoiras.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

“Politólogos…”


Sempre nos ensinaram, e nós próprios também o fizemos, que somos um País, o mais antigo da Europa com fronteiras estabilizadas, etc.

Recentemente, um daqueles doutos comentadores, que agora se intitulam de “politólogos” – e perdoem-nos os linguistas, mas não encontramos justificação para o neologismo –, dizia, em tom de catedrático, que a nossa crise de identidade já vem de longe. Ora aqui surge a primeira dúvida: O que é, para o douto orador, identidade?

Muitos destes fazedores de crónicas, não por culpa própria da sua ignorância, mas talvez por não terem aprendido em tempo oportuno, pouco sabem de História de Portugal. Caso contrário, honrariam e sentir-se-iam honrados pelo facto de serem portugueses. De pertencerem a uma Nação a que não faltam atributos de identidade. 

Fizemos, como povo, nos quase dez séculos de vivência, muitas coisas boas e, também, algumas más. Soubemos impor-nos como nação; tivemos, por vezes, dificuldade em afirmar-nos como país. Alargámos e expandimos a cultura nacional; fomos incapazes de implantar essa cultura nos territórios colonizados. Mas, até isso, pode justificar-se, se atentarmos na enormíssima desproporção do colonizador face ao colonizado.

À custa de repetir, acabámos por interiorizar que somos um país pequeno, pobre e de fracos recursos, etc., etc. Mais pequeno e mais pobre era nos séculos XV e XVI e os Portugueses desse tempo acabaram criando um vastíssimo império. Isso é outra História, dirão alguns oradores de agora. Mas, estão desatentos: Isso é a nossa História!

Não alinho pelos que se põem em bicos de pés para aparecer na televisão, não pactuo com os princípios dos que empurram esses agiotas para lançarem e testarem ideias, não aceito os que pagam aos fotógrafos os enquadramentos que depois usam como força e empenho nas causas de proveito próprio – sejam elas económicas, políticas ou sociais –.

Os “politólogos” saberão explicar, melhor do que eu, o que se alcança com foto-montagens, tele-arranjos e político-conveniências. Mas, nunca vi nenhum desses eruditos paladinos da nossa felicidade desmascarar essas artes e embustes que visam enganar, para proveito próprio, aqueles que só têm como resposta, de tempos a tempos, um rectângulo de papel, onde põem umas cruzinhas e, depois, metem na urna de votos.

Vemos a facilidade com que o “branco” do discurso de um candidato passa a “cinzento” na campanha e vai escurecendo após a eleição. Será isto que estudam os “politólogos”? Mas então porque caem no esquecimento, ou na ignorância, tantas atrocidades, sobejamente conhecidas desses especialistas e lesivas do interesse de todos nós? Será isso, também, outra História?!... Saberão eles completar o velho aforismo: Adeus Mundo, cada vez….!

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Trilogia da Educação


Numa das últimas visitas que fiz à oficina do meu Padrinho - já lá vão uns bons vinte ou trinta anos -, quedei-me em frente dos “posters”, espalhados pelas paredes da forja, envelhecidos e descorados, entre os quais as “Lições de Salazar”, que nos meus tempos de aluno e de professor, estavam pendurados nas escolas.

Conversa puxa conversa e, comentando o quadro em que se apresentava a TRILOGIA DA EDUCAÇÃO NACIONAL, dizia-me o mestre ferreiro e meu Padrinho, ao tempo nos seus quase oitenta anos:

Nos últimos tempos tenho passado umas temporadas, lá por Lisboa, em casa da minha Adélia. Gosto sempre de ver as coisas; porém, nos tempos que correm, tenho assistido a muitas coisas que não gostaria de ver. Há valores que são eternos!...
Estás a ver esse quadro! Aprendeste por ele e também ensinaste por ele: Os valores nele referidos: DEUS, PÁTRIA, FAMÍLIA constituem a base de qualquer educação, até dos que não acreditam nessa trilogia: os ateus, os anarquistas e os desenraizados, têm, no mínimo, que respeitar estes valores, como referências da esmagadora maioria.

Mas, depois do que para aí se vê, nem sabes a vontade que me dá de actualizar o quadro. Bastava uma simples letrinha para que retratasse os tempos modernos. Ficaria assim: ADEUS, PÁTRIA, FAMÍLIA. Os ateus ficavam contentes e os outros já referidos também não desdenhariam a alteração. Acabei por sorrir, mas fiquei a meditar naquilo.

Há poucos dias, não me recordo se num dos blogues que sigo, regularmente, se no facebook, ou nalguma daquelas graças em que somos férteis, vi publicado algo semelhante à observação do meu Padrinho. Pensei:

Critiquei-o muitas vezes, pelas suas ideias fora de tempo, chamando-lhe “velho do Restelo”, sobretudo pela sua ideia e seus conselhos de que não deveríamos ter ido estudar. Mas o diabo do velho não tinha a cabeça oca e foi pena que nunca tenha tido oportunidade de estudar.

Não foi desprezível o aperfeiçoamento que deu à pequena indústria que desenvolveu no fabrico, artesanal, de balanças romanas – conhecidas em todo o País – e mereceriam ser compilados os trabalhos que desenvolveu nos versos e quadras que foi fazendo toda a vida, bem como nos variados estudos e meditações que foi escrevendo, em papéis avulsos.

Descanse em paz Padrinho Jesuvino.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Máquina de costura



Havia, lá em casa, uma velha máquina, que minha mãe recebera quando terminou o “corte e costura” que fez na “mestra”. 

No fundo negro do corpo da máquina, além de umas flores, sobressaía o nome “Singer”, em letras douradas.

Na máquina foi confeccionada a roupa para toda a família e uma ou outra peça encomendada por alguma vizinha.

Falamos, diga-se, dos anos quarenta do já pretérito século XX.

Anos mais tarde, ao aprender inglês, veio-me à ideia aquela palavra “singer”, que pensava eu quereria dizer cantor, uma vez que “to sing” significa cantar.

Porém, ou porque não me quadrasse bem, ou porque sempre gostei de saber mais, sobre certas coisas simples, investiguei e, à guisa de curiosidade, aqui fica o resultado:

A industrialização, no séc. XVIII, trouxe a mecanização da fiação e da tecelagem, mas a milenar arte da costura continuou a fazer-se à mão, por batalhões de costureiras e alfaiates.

Só no séc. XIX se aperfeiçoou a máquina de costura, como tantas outras com o objectivo de aliviar as tarefas domésticas e paralelamente desenvolver a indústria.

Em 1810, Balthazar Krems, operário alemão de uma fábrica de artigos de retrosaria, criou a agulha e construiu com ela uma máquina, movida por uma alavanca, que dava pontos em cadeia, fixando duas telas.

Em 1830, o alfaiate francês Barthélemy Thimonnier construiu uma máquina parecida, com a qual obteve enorme êxito, a ponto de instalar uma fábrica em Paris, com 80 máquinas, para confeccionar uniformes para o exército.

No ano seguinte as máquinas foram destruídas, por uma manifestação de alfaiates, que temiam pela sua subsistência.

Dois anos depois, em 1833, o norte-americano Walter Hunt – conhecido como o homem que inventou o imperdível –, criou uma máquina de pespontar, movida por uma manivela e que já trabalhava com dois fios, formando um ponto entrelaçado.

O invento foi vendido ao nova-iorquino George Arrowsmith, em 1834, que nunca o comercializou, por falta de capital.

Sucederam-se os inventos e patentes, nos vinte anos seguintes, até que, em 1854, Wilson inventou a barra dentada situada por baixo da tela para fazê-la avançar, regularmente, depois de cada ponto.

Entretanto neste período, em 1851, o mecânico de Nova York, Isaac Merritt Singer patenteou uma máquina de sua invenção, para pespontar, accionada por um pedal. Uma roda dentada fazia avançar a tela, entre pontos e um calcador mantinha os tecidos no seu lugar.

A agulha movia-se, verticalmente...

O sócio de Singer, advogado Edward Clark, iniciou um sistema de vendas a prazo, em 1856.

Comprada a pronto, uma Singer custava 50 dólares; a prazo, com 5 dólares de entrega inicial e 3 dólares por mês, chegava a 100 dólares.

Em 1858, Singer produziu o modelo portátil “Familiar”; as suas máquinas anteriores passaram a modelos industriais.

Singer abriu fábricas na Europa, onde obteve êxitos idênticos e, quando morreu, em 1875, as suas empresas foram avaliadas em 13 milhões de dólares.

Lisboa-toponímia


 
A nossa cidade de Lisboa, muitas vezes chamada, das sete colinas, tal como Roma, ou Jerusalém e até Constantinopla, foi, segundo a lenda, fundada por Ulisses.

O que a grande maioria dos lisboetas ignora é o nome dessas sete colinas.

São elas: S. Jorge, S. Vicente, Sant’Ana, Santo André, Chagas, Santa Catarina e S. Roque.

Sobre essas sete colinas e, hoje, muito para além delas, estendem-se 3.557 arruamentos, com 57 categorias diferentes e um, apenas referido pelo nome.

As Ruas estão em larga maioria, num total de 2.160, representando 61% do total.

Vêm, a seguir as 364 Travessas, ou seja 10% dos arruamentos.

Os Largos (218) são seguidos pelos Becos (153) que superam as Avenidas (148).

Ainda acima da centena (108) temos as Praças e na casa das oito dezenas (83), as Calçadas.

As Azinhagas não vão além das 63, as Estradas ficam-se nas 40, um pouco mais que as 33 Escadinhas.

Os 23 Jardins, os 19 Passeios, as 18 Alamedas, os 15 Pátios, as 14 Pracetas e os 10 Altos, são os mais representativos das restantes 37 tipos de arruamentos de Lisboa.

Com 8 ou menos arruamentos, seguem-se, por ordem alfabética: Adro, Arco, Autoparque, Bairro, Boqueirão, Cabeço, Cais, Calçadinha, Caminho, Campo, Campus, Caracol, Casal, Circular, Corredor, Costa, Cruzes, Cunhal, Encosta, Escadaria, Escadas, Escolas, Esplanada, Estacada, Miradouro, Outeirinho, Paço, Parada, Parque, Poço, Portas, Rampa, Regueirão, Rocha, Rossio, Rotunda, Sítio, Telheiro e Terreiro. 

Há um local, na Freguesia dos Prazeres, cuja designação é, apenas Triste Feia, sem referência ao tipo de arruamento.

Na toponímia da área com nova urbanização na zona oriental da cidade, nomeadamente no Parque das Nações e zona da Expo 98, foram utilizadas novas designações para os arruamentos, como, por exemplo, Passeios (19), Cabeço (1), Portas (2).

Há locais cujas designações não constam das listas toponímicas da Câmara Municipal de Lisboa, porque não são oficialmente considerados arruamentos, pelos serviços municipais.

Surgem, por exemplo: Parque Eduardo VII de Inglaterra, Miradouro Sophia de Mello Breyner Andresen e Bairro Novo à Travessa das Águas Boas.

Mas não são considerados como arruamentos, embora reconhecidos pela Câmara: Parque Municipal do Vale do Silêncio, Miradouro de S. Pedro de Alcântara e Bairro da Serafina.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Os meus amigos


Ouvi, há tempos, uma palestra sobre “amizade e vizinhança”, em que Ápio Sotomayor, ulissipólogo e estudioso das pequenas/grandes coisas da Sociologia, lamentava o estado, de quase desuso, em que vêm caindo as relações de amizade, entre vizinhos.

A televisão, a segurança nas ruas, o ritmo da vida e a falta de disposição a que conduzem os problemas e dificuldades no dia-a-dia, são, dizem os sociólogos, alguns dos factores do afastamento, isolamento e capsulação das pessoas. 

Porém, em todos os tempos, estes problemas foram tratados e comentados por consagrados autores. Com recorte e enquadramento social a mais de um século de distância, cremos que vale a pena reler este soneto de Camilo e atentar na sua actualidade. 

Encontrámo-lo publicado, como texto de leitura, num livro de Língua Portuguesa em uso nas ex – Escolas Técnicas: 

Os meus amigos 

Amigos cento e dez e talvez mais, 
Eu já contei! Vaidades que eu sentia! 
Pensei que sobre a terra não havia 
Mais ditoso mortal entre os mortais. 

Amigos cento e dez, tão serviçais, 
Tão zelosos da lei da cortesia, 
Que eu já farto de os ver, me escapulia 
Às suas curvaturas vertebrais. 

Um dia adoeci profundamente, 
Ceguei. Dos cento e dez houve um somente 
Que não desfez os laços quase rotos. 

Que vamos nós (diziam) lá fazer, 
Se ele está cego, não nos pode ver... 
Que cento e nove impávidos marotos... 

                              Camilo Castelo Branco 
(Ao amigo JCG, na passagem do seu 70º aniversário)