sábado, 2 de fevereiro de 2013

Utopias e Dogmas…



A vida está cheia de utopias e dogmas, sendo que é utópico o que se imagina como sendo perfeito, ideal, porém, imaginário; e dogmático o que é tido como ponto fundamental e indiscutível de uma crença ou doutrina, sendo, pois, uma verdade absoluta, definitiva e imutável.

Nas várias décadas que levamos de vida – uma partícula, se comparada com a eternidade -, vemos nascer e morrer utopias e desmoronarem-se dogmas. 

Na política, na religião, na ciência e no simples dia a dia, não faltam exemplos do que acabamos de dizer. 

Daí o apuramento do sentido crítico, a dúvida metódica e a dificuldade de embarcar em qualquer teoria ou doutrina, sem o mínimo de garantias ou a menor base de sustentação.

Lembro-me da primeira definição de célula que há mais de meio século ouvi a um professor de anatomia: 

"São os milhões de pequeníssimos componentes do nosso corpo, sendo a actividade de cada uma, incomparavelmente superior à da maior petroquímica do mundo em plena laboração." 

E tudo isso provém de um óvulo fecundado por um espermatozoide – origem da vida.

Agora, sentado no sofá, vendo televisão, lendo os milhares de amigos que repousam nas estantes, em meu redor, consultando o computador, o telemóvel ou o simples tablet digital, vejo o Mundo encurtar-se, ao contrário do que me foi revelado nos anos de colégio – era a Dona Elisa que nô-lo mostrava nas aulas de História e de Geografia, ou o Dr. Baptista nas Ciências Naturais.

Depois, vejo a minha neta, que nos seus sete anos, lê e escreve em línguas portuguesa e francesa, abre o Skype e conversa com a tia que está na Suíça e pesquisa os desertos da Austrália; ou vê os DVD do homem sobre a Lua; ou a NASA a corrigir a rota de uma sonda a milhões de quilómetros da Terra.

Leio também um velho relatório, em que, há pouco mais de vinte anos, propus a substituição gradual do sistema informático “main-fraim” por computadores pessoais, sendo severamente acusado de utópico. 

Todavia, uma década depois havia mais de duas centenas de PC na Empresa.

Lembro a primeira vez que o Comendador – meu patrão, ao tempo – me entregou um artigo sobre nano-tecnologia. 

Tudo hoje se cria e destrói à velocidade da luz e… de utopias, estou imunizado. 

Porém, quanto a dogmas restam-me o da criação da vida e o de Deus… Ambos aceites, sem reticências…

(Homenagem à Srª Dª Elisa, minha profª no Colégio D. Pedro V, de Mação,  falecida há poucos dias )

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

A frágua e o barroco



“Ao volver da Quelha, passei ali pela frágua do Manuel Domingos, acá umas boas jardas do Barroco Gordo e acertámos para amanhã, ao nascer do sol, uma passagem para calçar as vacas.”

Esta e outras frases, causaram-me certa estranheza nos primeiros tempos em que, ido de Lisboa, depois de criado nas terras da Beira Baixa, comecei a frequentar a casa da família da minha mulher, nos contrafortes da Serra da Estrela, nos lados da raia com a Espanha.

Sempre fui leitor aturado dos livros de Mestre Aquilino Ribeiro e, bastas vezes, confirmei nos dicionários de que sou consultor compulsivo, o significado dos termos mais vernáculos, ou simplesmente regionalistas, que ia encontrando. 

Hoje acho graça às anotações, que nessa época escrevi nos livros, quando, não raro, os releio.

Vim a constatar que o linguajar das “Terras do Demo” é, exactamente, o que o Mestre transcreve nos seus livros. 

E não se trata, afinal, de barbarismos, ou vernaculidades balofas; regista-se a língua viva e palpitante das gentes da Beira Alta. 

Não é com qualquer espírito, menos isto, ou mais aquilo, que se emprega a segunda pessoa do plural dos tempos dos verbos e se emprega, com muito mais a propósito, a forma bem-haja, em vez de muito obrigado, para agradecer.

Mas voltemos às palavras do António Preizal – assim chamado por ser natural da aldeia do Paraísal, nas arribas do Côa – com que iniciámos esta dissertação.

Quando diz que passou pela  frágua, está, correctamente, a referir-se à oficina do ferrador, que tem uma forja para preparar as ferraduras das bestas e os canelos dos bois e vacas.

Até então a palavra frágua era, para mim desconhecida. 

Pensei que se tratasse de uma corruptela de fraga, mas o dicionário desfez-me as dúvidas e não era única a expressão tronco, utilizada na minha terra para identificar o local onde se ferravam os animais.

Acá é uma forma arcaica, mas perfeitamente em uso na região, e muito precisa para o significado que se lhe atribui: para cá.

A palava barroco é aplicada, com toda a propriedade, nas terras da Beira Alta: penedo isolado e informe, ao contrário da Beira Baixa onde se emprega como sinónimo de barroca: escavação natural ou barranco

Mais uma vez, os significados correctos, segundo as fontes consultadas, são os usados nas terras onde, por adopção, me considero como nas minhas próprias origens.

Será interessante que, sociologicamente, se justifique esta pureza de linguagem e se confirme, ou negue, a afirmação, muitas vezes ouvida, de que a região onde melhor se fala o português é a das Beiras Alta e Litoral. 

Afinal as terras, magistralmente descritas por Mestre Aquilino.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Cuco



O cuco-canoro, cuco-vulgar, corredor, sacis, cuco-cinzento, etc., cujo nome: cuculidae, pertencente à família das aves cuculiformes

Tem cerca de palmo e meio de comprimento e quase três palmos de envergadura, pesando até 130 gramas; cada asa mede entre 23 e 25 cm. 

Em voo – o que não é muito vulgar -, mostra asas afiadas, cauda comprida e cabeça pequena, lembrando uma ave de rapina. 

Pousado, nos ramos de árvores, parece desajeitado e desproporcionado, com dificuldade de fechar as asas. 

As cores predominantes são o cinzento, no peito e na parte superior e, na parte inferior listas brancas e pretas. 

Os jovens são mais escuros e têm mais listas, que se estendem, também, à parte superior. 

Há, especialmente no Alentejo, uma variedade – o cuco-rabilongo -, a espécie mais numerosa, depois do cuco-comum. É voraz e predador de outras aves. 

O cuco adulto alimenta-se de insectos: aranhas, larvas e, principalmente, da processionária dos pinheiros. Enquanto jovem é alimentado pelos pais hospedeiros, com insectos, pequenos frutos e até grãos diversos. 

O cuco distribui-se por toda a Europa (referenciado em 37 países), onde passa o Verão, migrando após a postura dos ovos, para os bosques equatoriais da África. 

Os filhos só partem em Agosto/Setembro, sem nunca conhecerem os pais. 

Os cucos voam, de noite, isoladamente e os novos têm um sentido de navegação que lhes permite sobrevoar o deserto do Sara, antes de chegar ao seu destino. 

O cuco é o exemplo clássico de parasitismo, nas aves (não constrói o ninho, não incuba os ovos e não alimenta os filhos). 

A mãe-cuco, procura ninhos de aves mais pequenas – arvéloa, rouxinol dos caniços, toutinegra, etc. – cujos ovos são parecidos com os seus, e em cerca de 48 horas, põe 12 ou 13 ovos, um em cada ninho, por substituição de um dos ovos que lá encontra. 

A incubação do ovo do cuco demora apenas 14 dias, pelo que os cucos serão os primeiros a nascer no ninho. 

A primeira coisa que fazem é deitar fora os ovos que encontrem, ou até aves recém-nascidas, ficando sozinhos com todo o espaço e alimento que os pais-adoptivos levem. 

O característico e repetitivo cuc-cuu – origem do onomatopaico nome -, assinala o princípio da Primavera (Março /Abril de cada ano).

Nota: Há outros "cucos", sem penas nem asas, que seriam óptimos exemplos de parasitismo, mas dado o requinte dos seus processos, não se enquadram nas coisas simples que são, por norma, o objecto dos meus escritos.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Líder - liderança


A palavra “líder” é a grafia portuguesa da palavra inglesa “leader” – chefe -. 

Derivada de líder formou-se “liderança”- qualidade ou função de líder. Forma de dominação baseada no prestígio pessoal e aceita pelos dirigidos. (G. D. da Língua Portuguesa – Dr. J.P.Machado). 

Há líderes desde que o Mundo é Mundo; todavia a maior parte dos dicionários que consultámos não contém essa entrada. 

Usavam-se muitas outras palavras, ou expressões, para designar os chefes, os comandantes e os dirigentes. 

Talvez não fosse muito sentida a necessidade de massificar a palavra, pois os verdadeiros líderes não abundam, quer nos refiramos às classes sociais, aos grupos económicos ou aos dirigentes políticos. 

Mas com o apogeu das sociedades industrializadas e o consequente aparecimento das técnicas de Marketing, surgiram as oportunidades de generalização de grupos comerciais agressivos e apareceram os líderes. 

Pessoas que, pela sua personalidade, exercem influência sobre o comportamento dos outros, conduzindo-os na acção e representando-os nas suas pretensões e opiniões. 

Também na política o líder é a pessoa que chefia um grupo político – partido –, ou um movimento, e os representa, institucionalmente. 

Ao falarmos de líder, referimo-nos à personalidade. 

Efectivamente , umas das primeiras condições do líder, como chefe e como dirigente, deriva da sua personalidade. 

Vem, depois, um vasto conjunto de atributos que exercem influência sobre o grupo que acaba por reconhecer o líder – chefe incontestado e aceite, incondicionalmente, por todos. 

O líder tem de:

- Ter um comportamento irrepreensível, saber ouvir, ponderar e decidir; 

- Incentivar, premiar e saber ajudar, ou mandar apoiar, os que precisem; 

- Caminhar, resolutamente, para os objectivos que traça, ou recebe; 

- Rodear-se dos mais capazes e motivar os menos aptos; 

- Captar as tendências, aspirações, interesses e motivações do grupo e materializá-las; 

- Analisar as acções dos concorrentes, ou adversários, criteriosamente e separar o que é passível de combate, do que não é atacável; 

- Eleger a árvore no meio da floresta; 

- Elogiar ou admoestar, mas sempre com um carácter didáctico e construtivo; 

- Motivar os seus sequazes, com envolvimento e motivação, nas tarefas a desempenhar. 

E, se para dentro do grupo o líder nunca se pode abster da sua condição, para o exterior a tarefa é muito mais melindrosa: 

- Não pode, em circunstância alguma trair a expectativa que os seus seguidores têm dele próprio, como líder; 

- Não pode pactuar com falhas na execução das tarefas executadas; 

- Não pode dizer mal, abertamente, das acções do adversário e sempre que a tal se refira tem de adoçar a agressividade que tenha usado com alternativas válidas, exequíveis e realistas. 

- Tem de ser visto como líder, também pelos adversários; 

- E tem de ter sempre presente que a liderança se conquista e mantém ao longo duma vida e se perde num simples acto irreflectido, mal amadurecido ou simplesmente falhado. 



domingo, 23 de dezembro de 2012

NATAL e ANO NOVO

Boas festas
e
Ano Novo 
acima das expectativas

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

amizade…



Os dicionários definem-na como “sentimento de quem é amigo”. 

Dizem, ainda, que se trata de “afeição mútua, dedicação…”. 

…Mas, as conversas entre amigos são contínuas!... 

Não se cingem a simples trocas de palavras; já que ainda que fiquem apartados durante anos, os amigos retomam-nas, sempre no ponto em que ficaram, empenhando, todavia, a experiência entretanto adquirida e vivida. 

Serão intemporais?... 

Os grandes amigos não carecem de comunicação constante e ininterrupta... 

Podem não dizer nada um ao outro, entre os encontros. Porém, quando se tornam a ver, a sensação é a de que se tinham visto no dia anterior. 

Esse dia podia ter sido ontem, há um ano, ou quarenta anos atrás. 

O tempo que medeia entre os encontros é trocado por um abraço, um aperto das mãos, ou mesmo um simples olhar. 

As bibliotecas, cheias de livros, relatam histórias que podem ser utilizadas como ilustradoras de amizades indescritíveis. 

Desde a mais remota antiguidade os grandes autores e pensadores deram lugar de destaque aos sentimentos de amizade, muitas vezes conotando-a com o amor. 

Porém, sem fugirmos ao tema, vamos deixar isso à filosofia e aos filósofos e atentaremos, antes, no mais primário e simples sentimento da amizade. 

Desde um instinto de sobrevivência da espécie, com necessidade e cumplicidade na protecção por, e de outros seres semelhantes ou não, distinguem-se diferentes e diversas origens e variados níveis, para o sentimento da amizade. 

Entram aqui as motivações primárias e, perdoe-se-nos a redundância, a pureza de sentimentos, tão mais perto da pureza quanto a simplicidade dos seus sujeitos. 

Disse Aristóteles que a amizade é uma alma com dois corpos. 

Difícil não é o significado da definição: dois corpos, ainda que um cão e um gato, vêem-se facilmente; já a alma, que, supostamente, lhes está subjacente, não é tão evidente. 

Dizer-se que a ONU decretou o dia 20 de JUL como Dia Mundial da Amizade, que o cão é o melhor amigo do homem, que os três mosqueteiros são o símbolo da amizade, ou despedir-nos “com amizade” no final de uma carta, são conceitos tão distantes e díspares, que em nada nos poderão elucidar sobre a amizade. 

Já a compreensão de uma palavra, ou acto, menos reflectidos, a mão nas costas num momento difícil, ou a ajuda anónima, podem estar muito acima daqueles conceitos universais. 

Um pai, uma mãe, que vêem partir um filho para a guerra, quando o olham e apertam pela última vez, sem dizerem uma palavra, manifestam a maior prova de amizade; será ela que ficará a sublimar o amor de pais. 

É que o amor e a paixão são mais exigentes, mais arrebatadores, mais visíveis; não mais verdadeiros, seguramente. 

Foi por algumas destas razões que intitulei…laços…o sentimento com que tentei definir a ligação de um grupo de camaradas que, há 40 anos, combateram na Guiné e, sempre que se reencontram vão continuando a conversa...como se nunca se separassem…

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

O“anónimo”

Quanto mais consultas faço, mais se afasta a hipótese de qualquer justificação para defender e, muito menos aceitar, a figura – já que outra coisa não me parece – de “anónimo” (para mim, escuro, sombrio, maldoso...). 

Nas Sociedades ancestrais, por razões compreensíveis, foi muito usada a figura “anónimo”. 

Porém, com a evolução do Pensamento e o progresso dos direitos literários e de autor, o anonimato, se não for pedido por razões aristocráticas, pela sátira anónima que se quer pôr a salvo, ou por diversas resistências literárias, é cada vez mais raro e injustificado. 

Desde o séc.XVII e, acentuadamente no séc.XVIII, houve muita curiosidade de descobrir os autores de obras anónimas. 

Foi, porém, no séc.XIX que se publicaram variadíssimas colectâneas, de muito útil e vasta consulta. 

Entre as portuguesas, salientamos a de Martinho A. Fonseca – Subsídios para um Dicionário de Pseudónimos, Iniciais e Obras Anónimas, de Escritores Portugueses – Lx. 1896. 

Também o Hagiológio – Relação anónima, de Jorge Cardoso, impressa em Lisboa, foi um sucesso. 

Anónimo, do grego anónimos – usados caracteres latinos para representar os sons da palavra grega -, significa: “sem nome”, “que não recebeu nome”, “que não se deve nomear”, “que não se dá a conhecer”, “desconhecido” (segundo o Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa, do Dr. José Pedro Machado – Editorial Confluência, 1ª edição publicada em fascículos – iniciada em NOV1952). 

Já o Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea – Academia das Ciências de Lisboa – Edição Verbo, em 2001, dá a seguinte entrada: “sem nome”, “que oculta a sua identidade”, “de quem não se sabe o nome”, “que não é notável”, etc. 

Filosoficamente, chegaremos facilmente a um não ser, não concreto, não visível e, portanto a uma coisa inexistente, concretamente. 

Por oposição o ser , que tem um nome, existe, dá-se a conhecer, exibe o seu nome, para o bem e para o mal quer ser reconhecido, identificado. Não esconde a identidade, embora possa fazer reserva do seu nome. 

O nome é um direito natural, que ninguém aceitaria substituído, por exemplo, por um número. Não compreendemos, pois, que alguém aceite ser referido como anónimo. 

Pensamos mesmo que o conceito de anónimo não merece sequer consideração, pois quem não quer, ou não pode, ser nomeado, deverá fazê-lo usando a expressão incógnito

Essa sim com o significado de identificado, mas com reserva de publicação do nome, por razões pessoais, legais e de defesa de interesses vitais. 

Também o uso de pseudónimo é aceitável, pois subentende uma reserva de nome, longe e contrária, portanto do anónimo e sem o sentido pejorativo atribuído a este. 

Todavia, podemos aceitar, por razões de força e ênfase: “manifestações e contribuições anónimas”.