sexta-feira, 6 de setembro de 2013

O penedo da Lameira


Ainda o sol, vindo dos lados do Casalinho, depois de contornar o cabeço do Pião, não banhava o povoado, já o “príncipe” espreitava os primeiros raios, especado no alto da portela da Casinha, ali no cimo dos Brejos.

Um pouco mais atrás, o Ti’Luís Mestre – moleiro desde que se conhecia e dono de uma das azenhas do ribeiro da Louriceira – seguia o “fadista”, ajoujado sob a carga de taleigos de farinha, com passo lento e cadenciado.

A aldeia, estendida no sopé de um pequeno relevo – de que herdou o nome, impróprio, de Serra – tinha acordado, há muito. 

Eram sinais disso, o cantar dos galos, o ladrar dos cães e o barulho de um ou outro chocalho das cabeças de gado que já se dirigiam às hortas.


O moleiro, que visitava a aldeia todas as semanas, tinha os seus fregueses.

Até o “fadista” guiava o dono, parando junto às portas onde ia trocar o taleigo de farinha pelo saco de cereal, que levava para o moinho, trazendo a farinha, depois de moída e maquiada, na semana seguinte.


Naquele ritual, enquanto parava às portas, o “fadista” ia lançando a boca às verduras, ou outras coisas comestíveis que apanhasse à mão, o que muitas vezes lhe valia uma arrochada no lombo, não tanto como castigo, pelo abuso, mas como sinal de arranque para a próxima paragem.

O “príncipe”, que todo o caminho se entretivera a correr, a parar de repente, a ir ao dono, a fugir para fora do caminho, perseguindo as lagartixas que passavam ao seu alcance, sentava-se, sobre as patas traseiras, enquanto atendiam os fregueses.

Não se incomodava com a comida, pois, normalmente, não tinha fome. 

Os ratos, ratazanas e similares, que pululavam lá nas azenhas, chegavam e sobravam para lhe encher a barriga. 


Daí que os seus maiores inimigos fossem os gatos, que pintavam no terreno, à procura de “caça”.


O Ti’Luís Mestre, sexagenário baixote e atarracado, vestia, invariavelmente, calças de saragoça, camisa de flanela e um blusão, tipo jaqueta, justo na cintura.

Calçava botas de cabedal, ensebadas e cobria-se com uma boina escura e esbranquiçada pela farinha.

Até as sobrancelhas denunciavam a profissão do moleiro, que, raramente se separava da bengala com que acariciava o lombo do “fadista” e lhe servia de amparo e companhia, nas caminhadas.


A maquia dos taleigos chegava para lhe dar uma vidinha sem sobressaltos e para criar os quatro filhos que estavam em casa, com a mãe – a Ti’Luísa, uma santa.

A personalidade e o feitio do moleiro tinham-se adaptado ao ritmo da azenha; dormia, com o barulho das mós, acordava, com o silêncio das paragens.

Uma manhã, de fins de inverno, ao deitar o nariz fora do casebre, onde funcionava a azenha e onde tinha o catre em que, tal como seus antepassados, estendia os ossos, enquanto o engenho marchava, viu tudo branco – havia, nos campos, uma coisa que nunca vira –.

Imediatamente lhe veio à ideia que em tempos ouvira falar na neve, que cobre as terras altas e é formada por água gelada, que cai assim do céu.

Saiu do tugúrio, assobiou ao “príncipe”, que parecia louco, a correr de um lado para o outro e a meter o focinho na neve branca e fofinha.

Deu uns passos em redor do engenho.

A água do ribeirito continuava a correr e tudo marchava, em perfeita ordem e harmonia.


Nesse dia fazia a volta da Serra, pois era terça-feira e não era dia de Entrudo, nem de Natal – únicas excepções para essa viagem semanal –.

Ao chegar quase ao cimo do vale, junto ao penedo da Lameira, olhou para o cabeço do Loureiro, nos altos da encosta em frente e viu tudo branco.

Que delícia, o brilho do sol reflectido pela neve!...

Parou uns momentos e fez alto ao “fadista”, voltando-se para ele, como que a convidá-lo a admirar aquela paisagem, nunca antes vista e que, provavelmente, poucas vezes se repetiria.


Inopinadamente, um sobressalto agitou o burrito, que soprou, violentamente, pelas narinas.

Ali perto, o cãozito, andava num frenesim nada habitual – nunca se lhe vira tal agitação –.


Homem e animais estavam no centro de qualquer coisa; participavam em qualquer cena desconhecida a que a neve dava moldura especial e o espírito calmo e pachorrento do Ti’Luís Mestre não percebia.

Sentia que o burrito estava hirto e o cãozito todo eriçado, fixados na fresta do penedo.


Olhou, instintivamente, na mesma direcção, depois de, em milésimos de segundo, lembrar as moiras encantadas, as luzes referidas pelos mais alucinados com a zurrapa que bebiam na tasca do Sebastião e até imaginou a bandeira que, segundo a tradição, ali foi colocada, pelas tropas de Napoleão, marcando o centro de Portugal.

De repente, acordou, desceu à terra, agitou os pés, sobre a neve, e, junto dos seus companheiros, olhou... esfregou os olhos, para se certificar que não sonhava, e viu uma loba, maior que os maiores cães que já vira, saindo da fenda do penedo, abandonando o covil, acompanhada por três filhotes.

Dirigiu-se para o mato, sem denotar grande nervosismo, e desapareceu.


Estava feita luz na cabeça do Ti’Luís Mestre; não lhe falassem de barulhos de moiras encantadas, de luzes na escuridão, ou bailados e reuniões de bruxas...

No penedo havia sim um covil de lobos, cujos ruídos eram normais e que ao saírem, durante a noite, projectam a luz dos olhos para quem os vê.

Foi sem receio que continuou a passar no local, pois ao ser interpelado, o ti’Luís limitava-se a galhofar:


Tenho medo do “bicho homem”, que me pode fazer mal; dos outros, dos verdadeiros bichos, nunca tive medo, porque tenho a certeza que sempre me tratarão como eu os trato: nunca me farão mal.

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Licença de isqueiro



Aqui, sobre estas palavras, está a imagem de uma das coisas caricatas antes do 25 de Abril: a licença para usar acendedores e isqueiros.

Lembro-me de tirar um, ou dois anos, a referida licença, pois ali pelos cafés Martinho, Paladium, Restauração, Gelo, Patinhas, e outros onde se jogava bilhar, tertuliava e estudava, era permitido fumar e, pululavam os fiscais que, escondidos atrás de um jornal, espreitavam quem acendesse o cigarro com um isqueiro para pedirem a licença de isqueiro, ou o pagamento de uma multa que era de 2$50 – vinte e cinco tostões, na linguagem dos anos sessenta -.

E não havia estudante que não gozasse com fiscais e polícias, quer acendendo fósforos com uma só mão, imitando isqueiro, quer resguardando-se para acender o cigarro, como que protegendo a chama de um isqueiro e ostensivamente desafiando a atenção de suspeitos fiscais e outros, que já eram conhecidos de outras andanças.

Depois o expediente de junto da multa fazer uma doação para o Socorro Social de 10 ou 20 centavos.

É que a operação burocrática de aceitação de doação consistia no preenchimento de vários papéis e recibos que o doador exigia da autoridade autuante.

Vistos agora, à distância de umas décadas, aqueles fiscais e informadores, facilmente detectados,
eram olhados com um misto de raiva, desprezo e revolta, não tanto pelo mal que causavam, mas pela imagem de agiotagem, servilismo e pobreza moral e intelectual que retratavam.

Funcionários que a troco de uns parcos escudos, sacrificavam o descanso e fora das horas de trabalho, espreitavam estas e outras pequenas hipóteses de ganhar uns tostões, ou de agradar a um chefe que lhes dava algumas benesses na função, ou no trabalho.

Um dia estávamos no átrio do velho cinema Odéon, no intervalo do cinema, fumando uma cigarrada.

O Américo, meu colega de pensão na R dos Douradores, puxou do isqueiro, acendeu o cigarro e, pouco depois, um desses fiscais, mostrou-lhe uma espécie de crachá e pediu-lhe a licença do isqueiro.

Como já tínhamos referido o sujeito e eu disse que se tratava do pai de um aluno da Escola onde era professor, o meu amigo voltou-se para mim e disse-me:

Oh! Senhor Professor, veja-me aqui, se faz favor, quem é este sujeito que me está a mostrar uma identificação qualquer e a pedir a licença de isqueiro.

É que, como o meu amigo sabe eu não sei ler e não tenho isqueiro.

Quando o homem encarou comigo, fez-se de mil cores, baixou os olhos e dirigindo-se a mim, pediu imensa desculpa, mas aquilo era a maneira dele ganhar a vida e que não levássemos a mal.

E, com o rabo entre as pernas, desapareceu, certamente para outras paragens, interpelando outros pagantes, para ganhar alguns cobres.

Infelizmente os filhos que frequentavam a escola, passavam fome.

Soube, mais tarde que o homenzito levava os apanhados a um polícia reformado que dividia com ele a percentagem do autuante nas multas que aplicava.

Recebia quatro tostões por cada captação que fazia para o polícia.

Sem comentário!…

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

História do sabão




O sabão não se encontra, espontaneamente, na Natureza; tem de ser fabricado, tal como o pão, o vinho, o queijo, ou o vidro, cujos processos de produção são extremamente simples e foram originados, geralmente, por fenómenos puramente acidentais.

As primeiras referências à produção de sabão são do historiador romano Plínio, o Velho (23-79 d.C.), mas estão documentados muitos factos pré-históricos, relacionados com sabão.

Na Babilónia, foram encontradas inscrições, datadas de 2.800 a.C., revelando fervura de gorduras de animais juntas com cinza. 


Porém a mistura seria usada como pomada para ferimentos, ou para penteados, pois ainda não se lhe conheciam as propriedades de limpeza.

No Egipto, o sabão não tinha lugar nos tão bem referenciados banhos de Cleópatra.

Já conhecido e preparado, continuava ligado ao tratamento de feridas e doenças da pele.

Na Grécia, o sabão estava, igualmente, fora dos hábitos de higiene.

Os gregos limpavam os corpos com blocos de barro, areia, pedra-pomes e cinzas. Depois, um instrumento de metal – o strigil – removia a sujidade, gordura e células mortas.

As provas definitivas da produção de sabão encontram-se na História de Roma.

De acordo com uma antiga lenda romana, o sabão tem origem no Monte Sapo, onde eram feitos sacrifícios de animais em pilhas crematórias.

Depois as chuvas arrastavam, para os barros das margens do Rio Tibre, onde as mulheres iam lavar a roupa, os restos de sebo misturados com cinzas.

Quando as lavadeiras descobriram que aquele barro lavava muito melhor, com menos esforço, descobriram, inadvertidamente, o sabão.

Porém, apesar da importância dos banhos públicos na sociedade romana, a utilização de sabão como agente de limpeza corporal não se encontrava disseminada.

Tal como os Gregos, os Romanos usavam o “strigil” para raspar a areia, óleos e cinzas com que cobriam o corpo. Completavam o “banho” com bálsamos de ervas.

Mais tarde os médicos romanos começaram a recomendar o sabão como benéfico para a pele e, nas ruínas de Pompeia foi encontrada uma fábrica de barras de sabão.

Durante muitos séculos o sabão teve avanços e retrocessos na higiene pessoal, mas acabou por ter larga utilização na lavagem de roupa.

Já no início do séc. XVIII avançou-se, definitivamente, com a produção de sabão a partir de derivados de azeite.

Nos EUA recebiam, no início do séc. XIX grandes quantidades de sabão ido da Europa.

Até que, em 1806, William Colgate abriu a primeira grande fábrica de sabão nos EUA, chamada Colgate & Company.

Em 1830, a empresa começou a vender barras de sabão de peso uniformizado e em 1872 Colgate introduziu os sabonetes perfumados.

Actualmente, com o avanço dos detergentes, os sabões pouca semelhança têm com o sabão fabricado através dos tempos.

Mas isso são outras “guerras”!...

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

O criado Xavier




O biólogo descrevia assim a célula humana: é tão pequenina que só pode ser vista ao microscópio; mas é tão complexa, a sua actividade, que se pode comparar à da maior petroquímica do mundo, em plena laboração.

...E acabava a aula com uma recomendação, em ar de desabafo: aprendam o essencial, porque, felizmente, não teremos de estudar cada célula, em particular; pois, ainda que conseguíssemos estudar uma célula num minuto, não bastaria uma vida, nem as vidas duma geração, para estudar o corpo humano!

 

Recordo, com muita saudade, o dedicado e delicado professor.

Com ele aprendi muito mais que a complexidade das células e percebi que mais complicadas são as simples coisas do dia a dia, quando envolvem sentimentos e pessoas.


É que o professor ia muito para além do estudo das células ou da fisiologia dos músculos....

Gostava muito de contar episódios reais – como fazia questão de frisar – de pessoas inteiras.


Tinha um carinho contagioso e repassado de sentimentos de humanidade quando descrevia os gestos do... velho “criado Xavier” que viera da Índia, com os seus antepassados, ao olhar fixamente e imperturbável, o seu senhor, quando este lhe pedia o “whisky, com pouco gelo”.


Retirava-se, solene e silenciosamente e, já na copa, surgiam as dúvidas inerentes a qualquer honrado e educado criado que fazia questão em que nada contrariasse o seu senhor:


Será whisky da mesma marca da última garrafa? 


Quererá o senhor fazer a prova?

Levarei aperitivos?

Da última vez foi caviar!

Tenho anchovas abertas!

Parto lascas de presunto?...?...


Todavia, em menos de um minuto, o criado Xavier entrava com o whisky sobre a bandeja, que pedia licença para deixar sobre a mesa, e retirava-se, após o gesto de vago agradecimento com que o senhor professor o despedia, sem levantar os olhos do livro que continuava lendo.


E, invariavelmente à mesma hora, a cena repetia-se cada dia, rematava o professor Neves.

sábado, 27 de julho de 2013

Amigos e conhecidos



São muitas as pessoas que conheci e conheço.

Conhecidos de vista, e com que convivi, profissional ou socialmente.

Ensinei muitos a descobrir o dia-a-dia, das primeiras letras até ao fim da escolaridade - nesses tempos a sexta classe.

Muitos outros, iniciaram, comigo, a vida profissional: como delegados de propaganda médica, vendedores das mais variadas coisas, técnicos de marketing e chefes de equipas.

Certamente ainda hoje lembram as recomendações mais vulgares: aborda-se o cliente com a pasta na mão esquerda, espera-se que uma senhora nos estenda a mão, pergunta-se a uma senhora se está bem e não se está boa, e outras trivialidades que terão ajudado a vencer na vida profissional muitas e muitos destacados técnicos, muitos mesmo extraordinários.

É com profundo e enorme apreço que relembro as duas centenas de militares que comigo e sob o meu comando, percorreram as matas da Guiné, nos quase dois anos em que ali defendemos a soberania nacional e enquadrámos as populações autóctones.

Restam desses tempos marcas indeléveis e de cada vez que nos vão chegando notícias dos que nos vão deixando, é muito forte o sentimento de pesar.

Ainda não são suficientes, para tudo apagarem, os quarenta e cinco anos que já passaram desde que regressámos e nos separámos no quartel da Amadora.

Tenho sempre presentes os meus familiares ascendentes – analfabetos por estatística, mas sábios por filosofia de vida – pois foi deles que herdei as melhores raízes que têm nutrido as sete décadas da minha vivência.

De igual modo, e nelas orgulhosamente me revejo, a minha mulher e as nossas filhas como parte deste todo – uma geração –.

E a princesinha… a neta, que coroa tudo e todos e será, certamente, o fecho deste derradeiro ciclo da minha vida.

Um carinho muito especial, vai, todavia, para os meus professores: da instrução primária, do colégio de Mação, da Escola do Magistério Primário de Lisboa, de muitas outras Escolas, Colégios e Liceus, onde cursei as mais variadas matérias, bem como das Faculdades de Letras e Direito, onde ia por gosto e, até, por gostar.

Admiro o António Aleixo e todos os outros poetas populares; gosto de folclore, aprecio os grandes mestres da nossa gastronomia e vejo em todas as pessoas uma hipótese de me ensinarem qualquer coisa – sou um aluno recorrente e assim quero ser para sempre –.

Os livros, com quem passo muito tempo e os meus escritos, preferencialmente dessa e para essa gente simples a que pertenço e de que me honro.