segunda-feira, 9 de julho de 2012

Licença de isqueiro



Aqui, sobre estas palavras, está a imagem de uma das coisas caricatas antes do 25 de Abril: a licença para usar acendedores e isqueiros. 

Lembro-me de tirar um, ou dois anos, a referida licença, pois ali pelos cafés Martinho, Paladium, Restauração, Gelo, Patinhas, e outros onde se jogava bilhar, tertuliava e estudava, era permitido fumar e, pululavam os fiscais que, escondidos atrás de um jornal, espreitavam quem acendesse o cigarro com um isqueiro para pedirem a licença de isqueiro, ou o pagamento de uma multa que era de 2$50 – vinte e cinco tostões, na linguagem daqueles anos sessenta -. 

E não havia estudante que não gozasse com fiscais e polícias, quer acendendo fósforos com uma só mão, imitando isqueiro, quer resguardando-se para acender o cigarro, como que protegendo a chama de um isqueiro e ostensivamente desafiando a atenção de suspeitos fiscais e outros que já eram conhecíamos de outras andanças. 

Depois o expediente de junto da multa fazer uma doação de 10 ou 20 centavos, para o Socorro Social . É que a operação burocrática de aceitação de doação consistia no preenchimento de vários papéis e recibos que o doador exigia da autoridade autuante. 

Vistos agora, à distância de umas décadas, aqueles fiscais e informadores, facilmente detectados e olhados com um misto de raiva, desprezo e revolta, não tanto pelo mal que causavam, mas pela imagem de agiotagem, servilismo e pobreza moral e intelectual que retratavam. 

Funcionários que a troco de uns parcos escudos, sacrificavam o descanso e fora das horas de trabalho, espreitavam estas e outras pequenas hipóteses de ganhar uns tostões, ou de agradar a um chefe que lhes dava algumas benesses na função, ou no trabalho. 

Um dia estávamos no átrio do velho cine-teatro Odéon, no intervalo do cinema, fumando uma cigarrada. 

O Américo, meu colega de pensão na Rua dos Douradores, puxou do isqueiro, acendeu o cigarro e, pouco depois, um desses fiscais, mostrou-lhe uma espécie de crachá e pediu-lhe a licença do isqueiro. 

Como já tínhamos referido o sujeito e eu disse que se tratava do pai de um aluno da Escola onde eu era professor, o meu amigo voltou-se para mim e disse-me: 

Oh! Senhor Professor, veja-me aqui, se faz favor, quem é este sujeito que me está a mostrar uma identificação qualquer e a pedir a licença de isqueiro. É que, como o meu amigo sabe, eu não sei ler o que este sujeito me está a mostrar e também não tenho isqueiro. 

Quando o homem encarou comigo, fez-se de mil cores, baixou os olhos e dirigindo-se a mim, pediu imensa desculpa, mas aquilo era a maneira dele ganhar a vida e que não levássemos a mal. 

E, com o rabo entre as pernas, desapareceu, certamente para outras paragens, interpelando outros pagantes, para ganhar alguns cobres. 

Infelizmente os filhos, que frequentavam a escola, passavam fome. 

Soube, mais tarde, que o homenzito levava os apanhados a um polícia reformado que dividia com ele a percentagem do autuante nas multas que aplicava. 

Recebia quatro tostões por cada captação que fazia para o polícia. 

Sem comentários!…

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