terça-feira, 18 de junho de 2013

António Aleixo – 1


 Não me canso de reler os livros de António Aleixo e, quando posso, vou aumentando o pecúlio das quadras extra – livros.

Vem este meu gosto dos anos 70, dos serões n’O Meu Café, em Faro, com os contadores de histórias e os poetas populares algarvios.

O Pardal, da Quarteira, era imparável quando começava a desfiar as histórias que, anos mais tarde, seriam editadas no livro “Em cima do mar salgado”.

O Ti Liberato tinha as suas glosas, mas fazia mais o seu número em prosa, descrevendo peripécias e aventuras que trazia do mar, todos os dias.

O ponto alto era o momento em que cada um dos presentes dizia quadras do Aleixo, menos conhecidas, ou inéditas, com traços de verdadeira realidade. 

O Ti’Zé da Alfarrobeira, que vendeu cautelas ao lado do António, como ele dizia, lembrava:

Um dia, no mercado da Quarteira, acenei ao António: Olá “poeta!”…Ele respondeu:

Poeta, não, camarada
Eu também sou cauteleiro;
Ser poeta não dá nada
Vender jogo dá dinheiro.

Depois, ao dar-lhe parabéns por ter sido rei dos jogos florais, de Faro, no dia anterior:

Ontem rei, hoje sem trono
Cá ando outra vez na rua.
Entreguei a roupa ao dono
E a miséria continua.

Já na pensão do Pontes, onde comíamos um carapau, cruzando com uma “flausina”, atirou:

Riem d’outras com desdém
Certas damas bem vestidas;
Quantas…p’ra vestir bem
Se despem às escondidas.

E, quando lhe apontaram duas “suecas”, loiraças e muito envolvidas, atrás de uma tosta, com um ar de compreensão, eis o comentário do António:

Mas que grande aberração!
Porque será que fazem isso!...
A comerem pão com pão…
Quando é tão bom com chouriço….

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